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30 de jul. de 2010

Simone Saueressig fala para o "Leituras e Possibilidades"


a) O que tu mais gostas de ler hoje?
Atualmente tenho lido vários livros de aventura infanto-juvenil, como "Nick of Time" (que é excelente!). E atualmente estou lendo "No rastro do Jaguar" do Mauro Carvalho que foi, na minha opinião, o lançamento mais importante da Literatura Brasileira do ano passado.
b) O que significa escrever para ti? Como se dá o teu processo criativo?
Escrever é uma forma de viver aventuras e situações que nunca vivi. Também é uma forma de dizer coisas que eu considero importantes e que de outra maneira seriam ditas de uma forma mais séria e talvez bem menos atrativa. Isto é fundamental, ter algo para dizer. Não vale só escrever uma aventura emocionante, se a gente não tiver nenhuma idéia para defender. Quanto ao processo criativo... sei lá. Às vezes uma boa idéia surge durante um filme, ou um jogo de computador, ou mesmo lendo outros livros (quando a gente acha que o autor poderia ter desenvolvido uma vertente da história que ele deixou de lado). Em todo o caso, depois da boa ideia vem o trabalho de verdade, que é sentar e colocar ordem na ação e nos personagens. Este é o verdadeiro trabalho do escritor.
c) Tu querias ser uma escritora desde criança? como é que surgiu a vocação?
Pois é... não, eu não queria ser escritora. Eu não dava muita bola para isso. Queria ser arqueóloga, descobrir templos escondidos na mata, desenterrar pirâmides e viver muitas aventuras. Depois, eu quis ser bailarina. Escrever histórias apareceu depois: eu inventava histórias para minhas colegas e quando elas me pediam para recontá-las, não lembrava mais nem como começavam. Então comecei a registrar algumas idéias. Depois, com o passar dos anos das leituras, fui querendo escrever as histórias que já não contava, porque todo mundo tinha crescido e ido fazer coisas diferentes. Escrever passou a ser uma forma de alcançar "ouvintes" (que na verdade são leitores) que eu nem sequer imaginava que existiam.
d) Um escritor é responsável pela sua época? Deve registrá-la?
Acho que um escritor é um produto de sua época. Ele até pode se dedicar ao Romance Histórico, por exemplo, registrando a vida de pessoas que viveram em outras épocas, mas a época do próprio escritor estará presente em sua ótica, a maneira como vai abordar o texto, o vacabulário que vai usar, as ideias que estarão por trás de suas palavras. Registrar o cotidiano do próprio escritor é um objetivo muito pessoal. Nem todo mundo se dá bem com a dona Realidade.
e) O que tu gostavas de ler na infância?
Quando eu descobri a Literatura, imediatamente me apaixonei pela Fantasia. Li "O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas" e fiquei encantada. Outro período do qual me lembro bem, foi aquele em que li vários romances sobre aventuras nos mares do sul, como "A Ilha de Coral" e "A Laguna Azul", que depois virou filme e febre adolescente (dos outros, porque como eu já tinha lido o livro enquanto criança, todo aquele frison me pareceu bobo). Depois vieram os livros de Conan Doyle e seu imortal Sherlok Holmes, que mais tarde foi substituido por Maurice Leblanc e seu ladrão chique Arséne Lupin. Li Rudyard Kiplling com muita emoção ("Mowgli" foi o primeiro livro que tornei a ler imediatamente depois de fechar a última página, como se o livro não tivesse acabado). E finalmente apareceu a Ficção Científica, com os livros de Isaac Asimov, Arthur Clarke e Ray Bradbury, seguida de perto das histórias de terror de Alan Poe e Lovecraft. A Fantasia só voltou à minha vida no Segundo Grau, com "O Senhor dos Anéis" de Tolkien e os relatos aterrorizantes de Stephen King. De fato, nunca estive com meus pés de leitora muito no chão...
f) Em que sentido podemos dizer que Leitura é possibilidade?
A Literatura é a experiência virtual e artística mais completa que se pode ter. O Cinema te oferece imagem, cor, som e movimento. A Música te oferece som e impressão. A Pintura, impressão e imagem. A Escultura o tato a Poesia beleza. Mas a Literatura, através das palavras, é capaz de penetrar no pensamento dos personagens. Ela te obriga a participar do jogo criativo do escritor, mesmo que ele tenha morrido há séculos. Nenhum texto se revela se não for lido. Não é como uma pintura, que você pode ver apressadamente, ou uma música, que você ouve sem prestar muita atenção. A Literatura te exige tempo e entrega. E de volta, te oferece a possibilidade de mergulhar no coração das pessoas, dos heróis, das vítimas, dos vilões, dos medíocres, dos gênios. Ela expecula, pergunta, te obriga a dar uma resposta. Não é isso algo simplesmente sensacional?

22 de jul. de 2010

Dica de leitura: A máquina fantabulástica, de Simone Saueressig

Um faz-de-conta do menino Joaquim

A história do personagem que vou analisar é a história de Joaquim, um menino que sonha em ser adulto o mais rápido possível, pois sente-se incapaz de ter um pingo de imaginação e achava que ser criança era coisa no mínimo muito chata. Joaquim quando quer convencer-se do sonho que a vida adulta pode lhe proporcionar, insiste em deixar de lado a necessidade de fantasia, comum a todo o ser humano, porém manifestada de forma mais aberta na infância. Para ele, ainda "O Pai" é a palavra do poder. É o pai, que, por ser adulto, tem as respostas para tudo. Joaquim era amado por seus pais, exatamente porque era um menino "ajuizado". Essa posição sagrada de chefe de família, detentor do poder, é retomada em A máquina fantabulástica". Essa crença no poder e no saber do pai, deixa Joaquim numa situação de apenas espectador. Aceita passivamente as ordens do pai, abrindo mão de sua liberdade de opinar. Não foi educado para pensar. A máquina fantabulástica tematiza a opressão de Joaquim ante a família que não lhe permite o direito de ser. Quando encontra no elevador um bilhete "do povo do treze" e uma "espada", pensa logo em guardá-la, pois seria uma prova para que as pessoas acreditassem nele. Nota-se a preocupação do menino de que os adultos chamem de mentira o seu mundo "imaginário", que começa a se revelar. Desejam-no obediente e dócil em vez de uma criança questionadora. O desdobramento do relato está fundamentado, justamente no deslocamento no espaço; porém o problema dos heróis está centrado dentro deles. Ao chegar no mundo fantástico, comandado por uma máquina que transforma sonhos em realidade, descobre que, para voltar para casa, terá que ajudar a consertar a máquina fantabulástica que está desregulada. Terá então que passar um bom tempo naquele lugar. Joaquim, então, inicia suas aventuras acompanhado por Panchanhe, do qual se tornará amigo. Essa busca é a busca do reencontro das virtudes que previamente o personagem tem, mas que não sabia que tinha. Essa estada de Joaquim no mundo fantástico, será o seu encontro consigo mesmo. O que se pode observar é que, para a criança afastar-se da proteção materna, somente o fará por um motivo muito forte. O desejo da aventura de conhecer novas terras é maior que o desejo de permanecerem aquecidos pelos braços maternos. Enquanto os adultos nesta obra são representados como empecilhos para a realização do sonho da descoberta, Joaquim começa a ver o mundo onde não há limites entre a realidade e a fantasia. Começa a pregar a sua verdade individual e sem coleiras, começa a perceber um mundo diferente daquele que era acostumado a contemplar apenas da sua janela. Joaquim, que até agora só enxergava o mundo a partir da ótica de seus pais, vê-se diante de um fato novo. Encontra um boneco que fala e ainda por cima que tem nome. Apesar de suas diferenças, Joaquim vai encontrar na companhia do boneco, as experiências que transformarão sua vida. Acontece, então, o despertar da consciência de Joaquim. O menino, que só esperava que o tempo passasse depressa, para se tornar adulto, começa a viver sua primeira aventura na companhia do boneco Panchanhe. O ato de falar do boneco é fundamental para que o menino e o boneco se reconheçam como iguais, com as mesmas potencialidades e desejos. Ao reconhecer no boneco um "ser falante", permite-se a ideia de começar a brincar. Joaquim tem, agora, a liberdade para falar, quando quem apenas falava por e para sua infância eram os adultos. É interessante observar como a autora da obra estabelece a relação real/mágico numa ótica perfeitamente adequada à criança. Parece perceber que na criança a realidade e a fantasia são uma só. Longe das fadas mas com muita fantasia, a obra de Simone Saueressig problematiza problemas da sociedade atual, seja na busca da identidade perdida da criança, seja no aspecto das relações humanas. Esse menino que não consegue mais perceber o encanto das brincadeiras infantis, que sonha apenas em dormir para que o tempo passe e se torne logo adulto, parece ser o sonho da nossa criança atual. A vontade do menino de voltar a ser criança e assim redescobrir a capacidade de usar a imaginação, passa a ser uma das leituras possíveis, para aquelas crianças que também já abandonaram o desejo de ser criança. Nesta medida, a produção de Simone Saueressig aqui analisada, escrita numa linguagem simples, ajusta-se à evolução mental e ao amadurecimento da criança, trazendo-a, deste modo, da esfera do real para o sonho, remetendo-a à fantasia, uma vez que a autora tem consciência de que, para ela, aí não existem fronteiras. O despertar de Joaquim é a volta natural da tendência da criança para apreender o mundo, através, não da razão, mas da emotividade de seu eu. É o encontro do menino com ele mesmo. É a descoberta da autoconfiança e crescimento interior. A relação de Joaquim com o mundo adulto não impede a continuidade de sua ação libertadora. Na companhia de seu amigo fiel, ele começa a encontrar a coragem para enfrentar os desafios. Embora sabendo que seu pai jamais se aventuraria a descer a escada, busca ele, agora, a sua identidade. Não quer ser chamado de covarde. E por admirar a coragem de seu amigo, resolve enfrentar os medos e ir em frente. Embora ainda precise de alguém que o ajude. É esse questionar-se de Joaquim, é esse choque de verdades, que começam a determinar o crescimento do personagem, na busca de sua infância. Aquele "mini" adulto, mais acostumado a seguir o princípio da realidade, do que o do prazer, descobre-se transgredindo tudo aquilo em que mais acreditava. O crescimento de Joaquim dar-se-á, a partir do momento em que fica sozinho, longe de seus melhores amigos e necessita tomar decisões importantes. As situações que serão enfrentadas proporcionarão uma reorganização das percepções do mundo e, desse modo, possibilitarão uma nova ordenação das experiências de Joaquim. No momento em que o balão em que viajam é destruído por um raio, e seus amigos acabam caindo no mar e perdendo-se dele, é que Joaquim inicia sua nova busca: a busca da identidade perdida. Necessita encontrar seus amigos para salvá-los. É no momento de sua busca que encontra Sinfonia, uma sereia, que vai ajudá-lo a descobrir a inteligência, a coragem, a determinação e a esperteza, qualidades adormecidas pelo sonho de se tornar adulto. É esse caminho que percorre o personagem Joaquim. De menino passivo passa a ser um menino confiante, que consegue ocupar o seu espaço. Nessa história a alternativa não é obedecer e ser premiado ou desobedecer e ser castigado, esquema consagrado pela tradição pedagógica dos contos. A questão agora do menino é o que fazer para atingir o objetivo almejado: encontrar seus amigos. Ao reencontrar seus amigos e salvá-los, Panchanhe não consegue despertar e Gio Luna, acha que o boneco morreu de verdade. Joaquim não aceita a morte do amigo e pede que "a fada" traga seu amigo de volta. Joaquim que não assistia a desenhos animados, não lia histórias em quadrinhos, não tinha um mínimo de imaginação e achava que ser criança era coisa muito chata, agora descobre-se um menino que acredita em fada. Passa, então, a gostar de sua própria idade, aproveita tudo o que pode, enquanto espera, sem pressa, a hora de seu adulto. Descobre como é importante ser criança e redescobre a capacidade de usar a imaginação e as brincadeiras infantis, coisas adormecidas há muito tempo. A imaginação, antes alojada no passado, agora solta as rédeas. O menino, emocionado, pede à fada que salve seu amigo Boneco. Seu desejo e a crença de que fada existe é tão forte, que o boneco acaba acordando, despertando para a vida. É também o despertar de Joaquim. Acorda o sonho de ser criança A viagem prossegue, rumo às Ilhas Encantadas. Querem chegar logo na Ponte de Cristal para consertarem o defeito. Ao se aproximarem da ponte, Panchanhe pergunta a Joaquim se ele está preparado para ir para casa e ele responde que não estava pronto para ir para casa, de jeito nenhum. Ao decidir ficar, escreve uma carta a seus pais explicando tudo. Tudo estava terminado. A Máquina havia sido consertada. Era só alguém chamar o elevador que nunca mais teriam problemas. Felizes, começam a comemorar a vitória, quando escutam o som de uma lata e ossos pelo ar. Era Sineta que voltava Para se vingar do boneco. O boneco lamenta por não ter mais a sua espada. Estavam encurralados. De repente, Joaquim lembra-se que poderia ajudar seu amigo. Corre para o elevador e procura a espada que havia escondido. Consegue recuperá-la, mas nesse instante alguém chama o elevador e Joaquim não tem tempo de decidir se ficava para sempre no 13º andar ou se voltava para casa. Só dá tempo para atirar a espada antes do elevador se fechar completamente. Quando Joaquim entrou no 13° andar, era um garoto cujas características já discutimos. Quando voltou ao mundo real estava mudado. Percebe que nunca mais conseguirá voltar ao mundo mágico do 13° andar. Mergulha então nos livros em busca de aventuras e descobre novos mundos e personagens interessantes. O menino passa a aproveitar mais a sua própria idade e tudo o que pode, enquanto espera a hora de ser adulto. Descobre o mundo da literatura e as muitas emoções que os livros podem proporcionar. Através de Joaquim, Simone Saueressig mostra que a criança tem um lugar reservado. Que a criança deve ser livre para poder construir sua própria história. Acompanhar o crescimento do personagem Joaquim é reafirmar o prazer do encontro com um texto que, para além de falar à criança, ou ao adulto, diz-no do humano em suas infinitas possibilidades de construção.


20 de jul. de 2010

Celso Gutfreind conversa com alunos das sextas séries sobre o seu livro "Grilos"


Mais uma indicação literária foi motivo de encontro, debate, reflexão. As turmas das sextas séries conversaram com o autor do livro Grilos, Celso Gutfreind. Após o encontro, registramos as palavras do escritor no nosso blog:

a) O que tu mais gostas de ler hoje?
De tudo da prosa à poesia, em especial prosa com poesia.
b) O que significa escrever para ti?
Estar vivo psiquicamente, buscando a expressão e o outro.
c) Tu querias ser um escritor desde criança? como é que surgiu a vocação?
Não, não queria. Queria ser jogador de futebol ou artista de outra área, cantor em especial. A vocação me pegou com o sofrimento da adolescência. Ali, a palavra plantada, anos antes, acolheu-me e não mais me largou.
d) Um escritor é responsável pela sua época? Deve registrá-la?
Acho que todos são responsáveis e cada um registra à sua maneira, cada artista com a sua linguagem, cada vivente com a sua vida. O escritor colabora.
e) O que tu gostavas de ler na infância?
Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Mario Quintana, Fernando Sabino, Drummond. E muito gibi.

16 de jul. de 2010

Semana Literária: a maneira mais intensa de viver essa história.



Entendendo a leitura como ato individual, solitário, é no social que os jovens têm a oportunidade de dialogar, porque inseridos no grupo, e ouvindo outras vozes, além da sua podem questionar, refletir, indagar e transformar o que está posto, determinado. E a literatura, como expressão artística, é um dos instrumentos para propiciar esse encontro, diálogo.
O leitor, socializando a experiência de leitura do texto literário, abre caminhos para o diálogo. É através desse diálogo com o outro e consigo mesmo, que se forma um outro ser.

Semana Literária - Painéis dos alunos